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Agronegócios e inovação
O tema inovação ganha cada vez mais espaço nas estratégias de negócios. No campo da teoria econômica a atenção por esse tema segue mais lenta. Por que?

Na teoria econômica a inovação era vista como muito importante para poder aumentar a produtividade do trabalho e do capital, mas difícil de ser avaliada. Durante muito tempo foi vista como uma “força exógena”, uma “caixa preta” capaz de deslocar positivamente a função de produção. Nos últimos anos, houve avanços no campo da teoria e a tecnologia passou a ser vista como “endógena” e em consequência explicável e passível de estímulos, mas continuou como um ente abstrato.

E no mundo dos negócios? Para os dirigentes de empresas, o grande desafio estratégico é conseguir e manter no longo prazo a lucratividade nos negócios. No mundo cada vez mais competitivo, o que assegura isso é a empresa produzir algum produto ou serviço novo, ou então produzir algo existente de uma nova maneira. Nessas duas situações a inovação é chave.

Nos polos internacionais de ponta na inovação tecnológica, como, por exemplo, a California, sempre que se discute o assunto dois temas aparecem: China, como uma ameaça competitiva, e Internet/Inteligência Artificial, como abrindo novas possibilidades. No mundo empreendedor dessa região as startups, juntamente com o universo de apoio em torno delas (investidores, advogados de patentes, suporte de pesquisadores, etc.), são o canal viabilizador do processo de inovação/ida ao mercado consumidor.

O agronegócio brasileiro é um setor de ponta, inclusive alvo de referência internacional. A imprensa noticia, com frequência, dezenas de projetos que aprimoram várias técnicas de produção e gestão. No seu conjunto, o somatório dessas inovações específicas e localizadas perfaz o que se pode chamar de uma revolução tecnológica nesse setor.

Queremos comentar, no entanto, o que se chama de “inovação disruptiva”. Diferentemente do tipo de inovação incremental, a inovação disruptiva representa um baque no pensamento e visão convencional do negócio sujeito ao processo de inovação. As bases que referenciavam o negócio são questionadas e muitas vezes viradas de ponta cabeça.

Qual o papel da agricultura e da pecuária? É fornecer alimentos, fibras e insumos industriais? E em consequência a ênfase da inovação deva ser aprimorar processos de produção e gestão? Sim para essas três perguntas, caso o nosso quadro de análise contemple a inovação mais convencional.

Se reformularmos as perguntas acima, podemos mudar o eixo da lógica da seguinte maneira. Podemos perguntar como fornecer alimentos e insumos, e não como a agricultura e pecuária exercem essa função. Assim reformulando a pergunta, isso pode abrir novos horizontes, em que indústrias químicas, biotecnológicas e outras podem concorrer em tese com a agropecuária.

Não é intenção desse artigo traçar cenários futuros, mas apenas alertar que o tipo de inovação disruptiva, que está transformando radicalmente diversos setores de atividade econômica, pode alcançar o agronegócio. Podemos, entretanto, nos preparar para esse evento.

Recentemente, participei de um treinamento no Media Lab do MIT, sobre como planejar esse tipo de inovação.

Vale a pena conhecer o enfoque básico. Ao invés de se começar com a engenharia/tecnologia, o primeiro passo é conhecer as pessoas usuárias, os consumidores em potencial. Depois, vem um questionamento sobre o impacto da inovação sendo desenvolvida sobre a sociedade. Após essa análise dos aspectos humanos e sociais é que os esforços para desenvolver a tecnologia se direcionam para as questões mais específicas de engenharia e /ou gestão. O instrumento usado para o processo é o Método Canvas.

Voltando ao agronegócio, isso significa dizer que temos de primeiro olhar para os potenciais consumidores, quem são eles e o que querem. Serão os “millennials”? ou a geração Z? Que tipo de alimentos e fibras eles vão querer consumir? O passo seguinte é pesquisar quem são, e o que esperam do agronegócio, os diversos stakeholders da sociedade. Depois é que vamos “micro inovar”. No final do exercício, podendo pensar inclusive de ter um agronegócio…sem o agro!

Artigo escrito pelo professor do MBA Pecege em Direito do Agronegócio Pedro Carvalho de Mello.

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